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O rito anglicano
+José Moreno

O Livro de Oração Comum (LOC) constitui-se no manual de liturgia das igrejas anglicanas ao redor do mundo. Foi composto por Thomas Cranmer, arcebispo de Cantuária, e oficializado na Igreja da Inglaterra em 9 de junho de 1549 (Domingo de Pentecoste).

Esteja ligada à Comunhão Anglicana ou a alguma jurisdição continuante ou confessante, uma Igreja expressará a sua identidade anglicana de forma especial mantendo um estilo litúrgico de culto de acordo com o LOC, o qual contém todos os ritos e cerimônias necessários à continuação e atualização do sacerdócio de Cristo no mundo. No Brasil, temos alguns LOCs atualmente: o da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), o da Diocese do Recife (Cone Sul), o da Igreja Episcopal Reformada do Brasil (IERB) e o Breviário do LOC, da IEAL, publicado em janeiro de 2007.

O rito anglicano tem origem principalmente no Rito de Sarum, que era usado na catedral de Salisbury, atribuído ao bispo Osmund (1085 d.C.). Cranmer inspirou-se também em outras liturgias que estavam em uso na Inglaterra de sua época: Hereford, Bangor, York e Lincoln. Mas no prefácio do LOC fez constar: "...onde antes havia tanta diversidade [...] a partir de agora, todo o Reino terá um só rito".

Há de se destacar que, de acordo com o bispo Stephen Neill, em Anglicanism, o caráter reformado (protestante) do rito estabelecido por Cranmer se deve à influência dos escritos luteranos com os quais o reformador inglês teve contato quando jovem, nas proveitosas reuniões na Taberna do Cavalo Branco, em Londres.

Em nosso uso, na Igreja Episcopal Anglicana Livre, o culto eucarístico, também chamado missa ou comunhão, segue as linhas gerais estabelecidas pelo LOC e pelo anglicanismo histórico. A missa, antes de tudo, é uma refeição, tendo sido instituída na última ceia pascal (Mt 26.26-29); nela, recebemos o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo oferecidos em sacrifício no Calvário, de uma vez por todas, para a remissão dos nossos pecados. Esta celebração é repetida perpetuamente em memória de Cristo (Lc 22. 19). Na perspectiva bíblica, memória (anamnese) não é apenas lembrar-se de um fato passado, mas torná-lo presente sacramentalmente; por isso, quando comemos e bebemos, alimentamo-nos do verdadeiro Corpo e do verdadeiro Sangue de nosso Senhor e atualizamos a sua obra em nós, sem, contudo, repetir o sacrifício.

O nosso culto é composto de quatro momentos principais: (1) os ritos iniciais; (2) a liturgia da Palavra; (3) a liturgia eucarística; e (4) os ritos finais. Há partes fixas, que se repetem a cada celebração e partes móveis, que permitem plena liberdade de expressão diante de Deus, criador e sustentador do universo.

Os ritos iniciais começam com o cântico e a procissão de entrada; o sacerdote ocupa o seu lugar, saúda o povo, pronuncia as palavras de acolhida; conduz o povo ao louvor e à confissão de pecados e pronuncia a absolvição.

A liturgia da Palavra consta das leituras na seguinte ordem: Antigo Testamento, Salmo, Novo Testamento e Evangelho. As leituras são determinadas pelo calendário litúrgico e são extraídas do Lecionário do LOC. Em seguida, vem a homilia ou sermão.

Para a liturgia eucarística, o LOC da IEAB, por exemplo, prescreve os ritos I e II, mais dois ritos alternativos. Na IEAL, é permitido diversificar os ritos, observados os Trinta e Nove Artigos de Religião:

"Não é necessário que as tradições e cerimônias sejam em toda parte as mesmas, ou totalmente semelhantes; porque em todos os tempos têm sido diversas e podem ser alteradas, segundo a diversidade dos países, tempos e costumes dos homens, contanto que nada se estabeleça contrário à Palavra de Deus. Todo aquele que por seu particular juízo, com ânimo voluntário e deliberado, quebrar manifestamente as tradições e cerimônias da Igreja que não sejam contrárias à Palavra de Deus e se achem estabelecidas e aprovadas pela autoridade comum, (para que outros temam fazer o mesmo) deve ser publicamente repreendido, como quem ofende a ordem comum da Igreja, fere a autoridade do magistrado e vulnera as consciências dos irmãos débeis. Toda Igreja particular ou nacional tem autoridade para ordenar, mudar e abolir as cerimônias ou ritos da Igreja, que tenham sido instituídos unicamente pela autoridade humana, contanto que tudo se faça para a edificação" (Artigo 34).

Por isso, no nosso Breviário do LOC há oito orações eucarísticas, dentre elas uma da Igreja da Inglaterra, uma da Igreja do Quênia e uma da Igreja Espanhola Episcopal Reformada, todas adaptadas à nossa realidade de igreja brasileira.

Os ritos finais constam da bênção e do envio ao mundo em missão. A Igreja militante, até agora reunida, se dispersa para fazer Cristo conhecido onde ele ainda não foi anunciado (cf. Rm 15.20).

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